Cuiabá - MT, 20-08-2022 às 00:39

Dia dos povos indígenas do Brasil

A autora do presente artigo Anna Maria Ribeiro Costa morou seis anos com o povo Nambiquara e há 38 anos estuda os povos indígenas.

Sonia Guajajara, coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) por sua força ilustra o presente artigo | Creditos: APIB

O dia 31 de março deste ano marcou 58 anos do golpe que derrubou o presidente João Goulart. Com o apoio de uma expressiva parcela da sociedade civil, da Igreja Católica e de outras instituições, a ditadura civil-militar foi instaurada no Brasil. Um período repleto de capítulos dramáticos que causaram e ainda causam impactos profundos à democracia brasileira. 

Censuras, prisões, torturas, assassinatos cometidos pela ditadura ainda causam impactos profundos à sociedade brasileira, mesmo que regida pela Constituição Cidadã de 1988, única a reservar uma sessão aos Povos Indígenas. O Brasil, dito recentemente em rede televisiva, é o único país do planeta Terra que comemora com louvor os anos do regime ditatorial, causando desgosto também aos seus países vizinhos. 

Em tempos de democracia ameaçada a todo instante, de violação aos direitos humanos, é preciso rememorar os horrores praticados pela ditadura no Brasil. Livros didáticos, na maioria das vezes, não se aprofundam na matéria, a ponto de amenizarem o cenário dos anos de 1964 a 1985. 

No Dia dos Povos Indígenas do Brasil (não é mais Dia do Índio em virtude da mudança etimológica feita pelo Senado Federal em 2021, a pedido da Deputada Federal Joenia Wapichana), deve-se rememorar junto à rica diversidade de histórias e culturas, como agentes do Estado trataram e tratam os povos originários deste país. Suas histórias de sangue e resistência tanto durante a ditadura como em todos os momentos da história do Brasil devem ser abordadas de forma séria. 

Relatório Figueiredo, de 1968, testemunha em milhares de páginas redigidas pelo procurador Jader de Figueiredo Correia perseguições aos povos indígenas com metralhadoras e dinamites atiradas de aviões, inoculações intencionais de varíola e doações de açúcar misturado a estricnina. A fim de apurar denúncias de crimes cometidos contra os povos indígenas, o procurador esteve à frente do grupo de investigação que, por quase um ano, percorreu mais de 16.000 quilômetros por todo o país, quando se constataram inúmeros crimes contra a pessoa indígena. 

A Comissão Nacional da Verdade confirmou um verdadeiro genocídio de indígenas de inúmeras etnias ocorrido durante o período da ditadura, mais precisamente na década de 1970. Relatos apontam que cerca de 8.000 indígenas foram exterminados em frentes de construção de estradas e ocupações de terras onde estavam edificadas suas aldeias, a exemplo dos povos Panará e Nambiquara, este último ainda em luta pela demarcação de parte de seu território. 

Urge que se faça cumprir o que estabelece a Lei 11.645/2008. Que o Dia dos Povos Indígenas do Brasil não seja comemorado em um único dia. O Dia dos Povos Indígenas do Brasil pode se unir ao Dia Nacional do Livro Infantil, comemorado um dia antes, com o intuito de que se faça chegar uma produção valorosa de livros didáticos e literários ao alunado, desde os anos iniciais do Ensino Fundamental. Autoras e autores indígenas – Eliane Xunakalo, Graça Graúna, Eliane Potiguara, Olívio Jekupé, Ailton Krenak, Helena Indiara Ferreira Corezomae, Renê Kithaulu, Fernando Kudoro Bororo, Daniel Munduruku, Carlos Tiago Hakiy, Cristiano Wapixana, Ely Macuxi e tantos mais – nos presenteiam com um acervo de livros imperdíveis para o conhecimento dos povos indígenas no Brasil, ainda tão desconhecidos para a maioria da população brasileira. 

Conhecer para respeitar

Anna Maria Ribeiro Costa Pós-doutora em Ciências Sociais, professora e escritora. É membro do Instituto Historico e Geográfico de Mato Grosso-IHGMT.

 

 

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